É que a gente nem se conhece.

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Eu não te disse? É que a gente nem se conhece. Ainda. Acho. Eu não te disse porque você nem sabe que eu existo, e eu não existo mesmo. Nem você. Inventei você e no meu “você”, você é perfeita pra “mim”. Não é estranho? Mas é verdade, a minha verdade, que é mentira. É confuso e fica mais quanto tento explicar. As palavras enrolam, a voz não sei direito, parece que mergulhei em um sonho que entrou em outro, e em outros depois. Não sei dizer. Você me entende? Mesmo que não, agora já tanto faz, tá tudo tão embaralhado. Não tenho mais certeza do que é o que, de quem é quem, do que eu quero e para quê.
A culpa é sua. Quem foi que embolou assim os meus pensamentos? Tá tudo cheio de nós e não consigo desamarrar, sem você. Me sinto preso e não sei o que vai acontecer. Essa sensação corrói igual cupim, você não percebe, até que um belo dia: puft! Aí haja cola, tempo e saco pra se refazer, pedacinho por pedacinho. E nunca fica perfeito, você já reparou? Por mais cuidado que se tenha, a emenda é evidente. E se faltar uma parte, por menor que seja, vai fazer falta. Você me faz falta e a gente nem se conhece.
“O seu sorriso é um barril de pólvora”, queria que soubesse. Mas não te digo porque é muito difícil elogiar alguém sem que este veja isto como um convite para algo mais. E nem sempre é. Mesmo assim, ninguém diz. Somos uma cambada de inseguros com medinho do desconhecido. Por isso calamos. Esse silêncio gera uma camada de carência. Assim, ao longo da vida acumulamos ideias, relatos, vontades e histórias inventadas, como esta. Mas não cabe tanto em tão pouco. Cedo ou tarde, inevitavelmente: cabum! Aí haja cola… muita cola, muito tempo e muito saco pra juntar o que sobrou. Emenda sob emenda. Alguns pedaços vão se perder, é fato. Há também o risco de montar-se errado. Mas tudo bem, agora já tanto faz. Estou todo desfigurado. Felizmente a gente ainda não se conhece.
“Seu olhar é um míssil Tomahawk” e eu um alvo fácil.
Via Conversa Oca

Sobre Paolla Saraiva

"Encontrar a liberdade onde menos se espera... No fundo do tinteiro... Na ponta de uma pena" (Marquês de Sade) Ver todos os artigos de Paolla Saraiva

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