Se você aprendesse a inalar a solidão como eu aprendi, se tivesse encontrado a tristeza bem enfeitada num dia repleto de lantejoulas, se corresse sem relógio no pulso, sem frequência cardíaca, sem morder o lábio, sem reclamar da dor dos pés, sem proteger os olhos da areia, se tivesse um coração tão duro, mas tão duro, a ponto de não ceder à dureza, aí sim você entenderia. Mas você tem calendário para olhar. Se você buscasse sua liberdade de você, seu vale de luz perdido, sua apologia à vida eterna, seu instante de devaneio e de loucura suprema, você saberia como dói o que chamam de arte mais bonita, como é arrancar os pequenos talos de flor que insistem em nascer na terra que quer matá-los, como é prender os pulsos em troca de uma garganta satisfeita, quebrar os vidros que protegem sua vitalidade por conta de uma emoção a mais. Mas você tem medo. E eu também, mas de outra coisa. É que quando os sinos tocam meus tímpanos vibram, e os pássaros voam, e as pessoas olham, e as crianças correm, e as nuvens passam, e muitas dores chovem, e eu não acompanho. Eu sou a parte do mundo que transbordou por não caber. Os eventos simultâneos me tiram do sonho, me tiram do avesso, me tiram da superfície e do amor que tanto me segura. Já não consigo cair, já não consigo seguir, já não consigo cantar, já não consigo atirar, já não consigo parar. Pois sendo apenas uma, já não consigo caber. E a parte que não cabe sente tudo. Sente como se fosse um testamento de última hora, um pedido de perdão, um único suspiro, o fôlego que faltou na hora em que se afogou, a pele que ardeu na hora em que queimou, a vida que morreu na hora em que nasceu. Se você riscasse outras paredes e visse sua cobertura desmoronar, se você não tivesse visto muito, mas pensado em tudo o que não tinha para pensar, se você tivesse arranhado o disco e se obrigado a fazer novas canções, aí sim você ergueria uma tocha de fogo, uma fonte de fumaça que sufoca e que só pode ser levada para longe com palavras ao vento. Se você tivesse visto a felicidade, nunca me encontraria de verdade. Eu sou a parte destroçada, o fóssil, o que ficou no subterrâneo, as peças que ninguém sabe para que serve, o traço escondido de enigma que veio do passado, as histórias jogadas aos pés de quem voa e aos olhos de quem vai embora. Aliás, já não consigo ir embora. Pois sendo apenas uma, já não consigo apreciar o verão. Tem que ser dois. E a terceira parte guarda tudo, relembra, revela, renova e requebra num carnaval de angústia que só um coração metido a poeta sabe fazer. (Zaluzejos)


Sobre Paolla Saraiva

"Encontrar a liberdade onde menos se espera... No fundo do tinteiro... Na ponta de uma pena" (Marquês de Sade) Ver todos os artigos de Paolla Saraiva

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