“Dentro de minha consciência”

“A princípio, diziam, era amnésia, depois a esquizofrenia – tantas palavras belas para camuflar este vazio, esta cratera de suas bombas que se abriu dentro de minha consciência: um buraco, eis o nome. Puseram-me uma medalha no peito, não sei se havia um Cristo nela, veio o arcebispo e disse algumas palavras em latim, depois falou um vice já nem me lembro do quê, falou um outro, e ainda um outro – todos estavam eufóricos, havia música no ar, muitas bandeiras, alguns foguetes, um beijo estalou-me na face direita. Por dentro eu estava que era só vazio, nem era o momento de lembrar-me de coisa alguma, poderiam tomar-me por um traidor com medalha e tudo – alguém me tomava pelo braço e me levava: eu ia. Quando vi já estava chorando no meu canto, sem uma tristeza, chorando simplesmente, como se me derretesse ao sol – atrás de mim havia um muro, lembro-me bem. Todos me saudavam como um herói, conhecidos e desconhecidos, e eu era para mim mesmo um desconhecido – um desconhecido que chorava sobre o meu rosto, sem ao menos se cobrir com as mãos. Eu devera ter sido puro para chorar a esse ponto e sem um motivo ao menos, tão distante de tudo e sem um motivo ao menos, tão distante de tudo como o muro às minhas costas, a mesma fria insensibilidade, a mesma ausência de vísceras e nervos. Era mais um vômito, o estrebuchamento de uma consciência morta a golpes de baioneta, dados não recebidos, pressentidos mais que dados, algo cuja verdade me escapava e era a minha única verdade. Quando vi eu gritava bem alto: MERDA!, duas, três, vinte vezes, com toda a força dos meus pulmões, como um cachorro voltado para a lua, sem saber bem o que fazia – simplesmente pela necessidade de gritar, como poderia ter gritado DEUS ou qualquer outra palavra sem sentido. Desde então fiquei sozinho para sempre, com a nova consciência que me pregaram a martelo no peito, este fundo abismo sem fundo, frio frio frio, como um ressuscitado em verdade mais morto do que nunca, sem passado, sem futuro, enxergando as coisas por binóculo, tão distante tudo, todos.”

Campos de Carvalho, in Vaca de Nariz Sutil

 

Sobre Paolla Saraiva

"Encontrar a liberdade onde menos se espera... No fundo do tinteiro... Na ponta de uma pena" (Marquês de Sade) Ver todos os artigos de Paolla Saraiva

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